Conde Alemán v71

IGR: 0095. Versión: 71. Rima: estróf.. Hemistiquios 52.

Portugal s. l. (Portugal)

Já lá baixo vem a noite,    vai-se a luz do claro dia,
vem o Conde d` Alemanha    a dormir com a rainha.
Ninguém o sabe na corte,    ninguém na corte o sabia,
sabe-o só Dona Joana,    filha da mesma rainha.
Bem podias, minha filha,    ajudar-me a encobrir,
o Conde é nobre e rico,    d` ouro nos há-de vestir.
Não quero vestidos d` ouro,    que os tenho de damasco;
`inda tenho meu pai vivo,    já me quereis dar padrasto.
As mangas desta camisa    eu as não cheque a romper,
se assim que meu pai vier,    eu lho não for dizer.
Bem-vindo sejais, meu pai,    e a vossa coroa real,
tenho muito que vos dizer,    muito mais que vos contar.
Veio o Conde d` Alemanha,    comigo queria brincar.
Põe a mesa, minha filha,    que são horas de cear,
o Conde é muito novo,    isso era por brincar.
Mal o haja ele, o Conde,    e tal modo de brincar,
pegou em mim em seus braços    e à cama me foi levar.
Se isso é, ó minha filha,    eu o mandarei matar.
É tão certo, ó meu pai,    como eu pôr-lhe de cear.
Amanhã por estas horas    verá-lo a degolar.
Venha cá, ó minha mãe,    à janelinha do meio,
se quer ver passar o Conde    vestidinho de vermelho.
Mal hajas tu, filha minha,    fora o leite que mamaste,
a morte que teve o Conde f    oste tu quem lha causaste.
Cal`-se lá, minha mãe,    que a não ouçam na rua,
a morte que leva o Conde    bem podia ser a sua.

Bibliografía:
Recogido antes de 1958. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, I, 152-153. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 850, pp. 70-71. © Fundação Calouste Gulbenkian.