Conde Alarcos v38

IGR: 0503. Versión: 38. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 66.

Montalegre (c. Montalegre, dist. Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal)

Indo dona Silvaninha    pelo seu corredor acima,
tocando numa guitarra,    oh tão bem que ela sabia!
Acordou seu pai dormindo    com estrondo que fazia.
Tu que queres, dona Silvana?    Tu que tens, ó minha filha?
De três irmãs que nós éramos    são casadas, têm família;
e eu por ser a mais formosa,    `ò canto fiquei metida.
Já corri palácios todos,    não achei quem me merecia,
só achei conde Alberto,    é casado, tem família.
Mande-o chamar, meu pai,    da sua parte e da minha,
que mate sua mulher,    para casar com sua filha.
Minha mulher não a mato,    que a morte não lhe é merecida.
Mata, conde, mata, conde,    senão eu tiro-te a vida.
hás-de trazer-me a cabeça    nesta doirada bacia.
Vai o conde para casa    cheio de melancolia.
mandou pôr a sua mesa,    para fazer que comia;
mandou vestir seus criados    do maior luto que havia;
mandou fechar seus palácios    coisa que nunca fazia.
Tu que tens, conde Alberto?    Tu que tens, ó meu marido?
O rei me mandou chamar    para eu te a ti matar.
Não chores, conde, não chores,    que isso bem remédio teria.
Meterás-me num convento,    onde eu não veja sol nem dia,
me darás o pão por onça    e a água por medida.
Chegue-me o filho mais velho,    que o quero abraçar;
chegue-me o filho do meio,    que o quero pentear;
chegue-me o filho mais novo,    que lhe quero dar de mamar.
Mama, mama, meu menino,    que este leite é da paixão,
amanhã, por estas horas,    tua mãe está no caixão.
Mama, mama, meu menino,    que este leite é de amargar,
amanhã, por estas horas,    tua mãe está a enterrar.
Tocam os sinos na sé.    Ai Jesus, quem morreria?
Morreu a dona Silvana    pelo mal que cometia,
de descasar os bens casados,    que era o que o Senhor não queria!
Viva o conde e a condessa    que era o que o Senhor queria!

Bibliografía:
Recogido antes de 1915. Publicada en Barreiros 1915-1916, 280. Reeditada en RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 677, pp. 355-356. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0005 Silvana contam.]