IGR: 0503. Versión: 115. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 74.
Cadaval (c. Cadaval, dist. Lisboa, Estremadura, Portugal)
Indo dona Selivana pelo seu jardim acima,
tocando numa viola, tocando que recindía.
Acordou seu pai do sono pelo estrondo que fazia.
Que tens, dona Selivana? O que tens, ó filha minha?
Todas as manas `stão casadas, só eu fiquei solteirinha!
Diz-me, dona Selivana, com quem queres tu casar?
Mande-me chamar o conde Alverca que lhe quero já falar.
Palavras não eram ditas, o conde à porta batia.
Que quer Vossa Majestade? Que quer Vossa Senhoria?
Que mates la vescondessa entre a noite e o dia.
Traze-m` aqui a cabeça, nesta doirada bacia.
Condessa não mato eu, mulher que tanto lhe queria.
Foi o conde para casa, mais triste que a noite e o dia;
mandou fechar suas portas, coisa qu` el` nunca fazia;
mandou vestir seus criados do maior luto que havia;
mandou pôr a sua menza do melhor manjar que havia,
nela se foi assentar para fingir que comia.
Eram tão grandes as dores, que até a loiça tremia,
e eram tantas as lágrimas, qu` inté os pratos enchia.
O que tens, conde d` Alverca? O que tens, ó meu marido?
Conta-m` as tuas tristezas, qu` eu te darei alegria.
Tristezas t` hei-de eu contar, mulher que tanto te qu`ria!
Mandou-me o rei chamar, que te matasse entre a noite e o dia,
que te levasse a cabeça nesta malvada bacia.
Deixa-me dar um passeio da sala para a cozinha:
adeus, cravos, adeus, rosas, adeus, dispenseira minha!
Deixa-me dar um passeio da sala para o quintal:
adeus, cravos, adeus, rosas, adeus flores do laranjal!
Mandai chamar o meu filho, que lhe quero dar de mamar:
mamai, meu filho, mamai, este leite d` aflição,
amanhã, por estas horas, outra mãe te dará pão.
Mamai, meu filho, mamai, este leite de amargura,
amanhã, por estas horas, `stá tua mãe na sepultura.
Tocam nos sinos em Mafra. Ai Jesus! Quem morreria?
Respondeu o menino do colo, nem mês e meio teria.
Morreu a dona princesa, que ela a morte bem merecia:
descasar os bem casados, coisa que Deus não queria!