IGR: 0503. Versión: 110. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 121.
Elvas (c. Elvas, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)
Passeava dona Silvana pelo corredor acima,
tocando na sua guitarra o melhor que sabia.
Levantou-se o pai da cama ao `strondo que ela fazia.
Que tendes, ó Silvana? Que tendes, ó filha minha?
De três manas que nós somos são casadas e têm família,
e eu por ser a mais bonita, por que razão ficaria?
Já corri a corte toda, não há fidalgo de valia;
havia o conde de Alarcos, é casado e tem família.
Esse, esse, ó meu pai, esse é o que eu queria;
mande-o, meu pai, chamar da sua parte e da minha.
Palavras que eram ditas, à porta do conde batiam.
`Inda há pouco vim do paço e já me mandam chamar!
Se será para meu bem, se será para meu mal!
Estou às ordens de vossa alteza, a mais alta senhoria.
Sabes, conde, o que te mando? Que cases com minha filha.
Como matarei a condessa se ela a morte não merecia?
Mata, conde, mata, conde, não me voltes demasia,
e traz-me a cabeça dela nesta dourada bacia.
Não ma tragas demudada porque eu bem a conhecia.
Foi-se o conde para casa muito triste em demasia;
mandou fechar seus portões, coisa que ele nunca fazia;
mandou vestir seus criados de luto à mouraria;
manda condessa para a mesa, que este é o último dia.
Pôs-se o jantar na mesa, nem um nem outro comia;
as lágrimas eram tantas que até os pratos enchia.
Que tendes tu, ó meu conde? Que tendes, ó alma minha?
Cala-te, minha condessa, . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
que se tu bem o souberas de repente morrerias.
Manda el-rei que te mate p`ra casar com sua filha.
Cala-te aí, ó meu conde, que isso remédio teria,
manda-me meter numa torre, na mais alta que havia.
Isso não, ó condessa, porque o rei logo o sabia.
Manda-me deitar ao mar que as ondas me levariam.
Isso não, minha condessa, que el-rei logo o saberia;
manda lhe leve a cabeça nesta maldita bacia;
não lha leve demudada, que ele bem te conhecia.
Deixa-me ir dar um passeio da sala para o jardim.
Adeus, cravos, adeus, rosas, adeus, tanque d` água fria,
onde o rouxinol cantava pela hora do meio-dia;
adeus, meu copo de prata, por onde eu água bebia.
Deixa-me ir dar um passeio da sala para a cozinha.
Adeus, meus fiéis criados, que a mim tanto me queriam.
Anda cá, filho mais velho, que te quero ensinar.
o que amanhã por esta hora a tua mãe nova hás-de falar,
com o chapeuzinho na mão e o joelhinho no chão.
Anda cá, filho mais novo, que te quero dar de mamar,
que amanhã, por estas horas, vai tua mãe a enterrar.
Mama, filho, mama, filho, este leite amargurado
que amanhã, por esta horas, já teu pai `stará casado;
mama, filho, mama, filho, este leite de amargura
que amanhã, por estas horas, está tua mãe na sepultura.
O menino, que não falava, que a idade o não permitia,
mas o menino falou e pela sua boca dizia:
Tocam os sinos em Mafra, quem morreu, quem morreria?
Morreu a dona Silvana pelo mal que queria,
querer apartar casados, o que Deus não permitia.
Tudo ficou assombrado de o menino ouvir falar,
à porta do seu palácio um correio `stava a chamar,
que suspendesse a morte que à condessa queria dar.
Ajoelhai, ó meus filhinhos, e a Deus vamos a pedir
que perdoe os seus pecados à que deixou de existir.