IGR: 0503. Versión: 102. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 104.
Beira Baixa s. l. (Beira Baixa, Portugal)
Estando a princesa a chorar, filha do rei de Castilha,
seu pai se foi ter com ela, ao estrondo que fazia.
O que é isso, ó Silvana? Que é isso, ó filha minha?
De três manas que eu tenho, são casadas têm família,
eu por ser a mais formosa, solteirinha ficaria?
Não tenho com quem te case, na mais alta senhoria,
só sendo com o conde Alves, é casado tem família.
Com esse, meu pai, com esse, com esse é que eu queria,
mande-o chamar, meu pai, da sua parte e da minha.
Ala, ala, meus criados, o conde Alves vão chamar.
Ainda agora de lá venho, já para lá hei-de tornar?
Entrou pelo paço dentro, fazendo mil cortezias.
Que me quer a Vossa Alteza? Vossa Alteza, Senhoria?
Quero que mates a condessa e cases com minha filha!
A condessa não a mato que ela a morte não merecia,
mando-a deitar aos matos que os bichos a comeria` .
Mata, mata, conde Alves, não me tornes demasia,
a cabeça me há-de vir nesta dourada bacia.
Não ma troques lá por outra que eu bem a conhecia,
que ao seu lado direito um sinal preto teria.
Foi-se dali o bom conde, cheio de melancolia,
mandou fechar suas portas, cousa que nunca fazia,
mandou pôr a sua mesa, nem um nem outro comia,
as lágrimas eram tantas que pela mesa corria` .
Que é isso, ó bom conde? Que é essa melancolia?
Conta-me as tuas tristezas que eu te conto alegrias!
Se eu te contasse tristezas, morta para trás caírias.
Mandou o rei que te mate, que case com sua filha.
Isso não, bom conde, não, que eu a morte não merecia,
manda-me deitar aos mares que os peixes me comeria` .
Isso não, condessa, não, que o rei logo o sabia,
a cabeça te há-de ir naquela negra bacia,
que te não troque por outra que ele bem te conhecia,
que, ao teu lado direito, um sinal preto teria.
Deixa-me dar um passeio, da sala para o jardim,
adeus cravos, adeus rosas, adeus flor do alecrim.
Deixa-me dar um passeio, da sala para a cozinha,
deixa-me dar de mamar ao filho que tanto queria.
Mama, filho, mama, filho, este leite amargurado,
amanhã, por estas horas, já teu pai está coroado.
Mama, filho, mama, filho, este leite de amargura,
amanhã, por estas horas, já estarei na sepultura.
Anda cá, filho mais velho, que te quero ensinar,
a tua mãe, a rainha, como lhe haveis de chamar.
Com o joelho no chão, o chapeuzinho no ar.
Estando nestas razões, el-rei à porta batia:
a condessa já é morta, senão ele a mataria.
A condessa não é morta, está nessas agonias.
Tocam os sinos na corte. Ai, Jesus! Quem morreria?
Morreu foi dona Silvana por crimes que cometia.
O pai morreu às dez horas e a filha ao meio-dia.
Apartar os bem casados, era o que Deus não queria.