Ciego raptor v66

IGR: 0189. Versión: 66. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 60.

S. Martinho das Amoreiras (c. Odemira, dist. Beja, Baixo Alentejo, Portugal)

Abra a sua porta,    feche o seu postigo,
dê-me cá um lenço,    que eu venho ferido.
Pois se vem ferido,    venha muito embora,
que a minha portinha    não se abre agora.
A sua portinha p`ra mim    se há-de abrir,
sou um triste cego    . . . . . . . . . cantar e pedir.
Acorde, minha mãe,    acorde de dormir.
Venha ouvir o cego    cantar e pedir.
Pois se ele canta e pede,    dá-lhe pão e vinho,
diz `ó triste cego    que siga o caminho.
Não quero o seu pão,    tão-pouco o seu vinho.
Quero que a menina    me ensine o caminho.
Pega, Venturina,    na roca e no linho,
vai `ó triste cego    ensinar o caminho.
Tiro a minha roca,    acabei meu linho.
Siga o triste cego    pel` aquele caminho.
Venha, Venturina,    até mais além,
sou curto da vista,    já não vejo bem.
Adeus, minha casa,    adeus, minha terra;
adeus, minha mãe,    que tão falsa me era!
Que tropa é aquela    que vinde d` além?
É infanteria    que vem de Belém.
Oh! Valha-me Deus    e a Virgem Sagrada!
Que ainda não vi cego    com tamanha armada.
Pois se `inda não viu,    vai agora a ver.
Venha, Venturina,    ajudar-me a vencer.
Oh! Valha-me Deus    e a Virgem Maria!
Que ainda não vi cego    com tanta alegria.
Daqui donde eu estou    vejo gente minha.
Suba esse palácio,    que há-de ser rainha.

Otros datos:
Notas e variantes de Maria da Conceição Dias: -8a Na versão de Ourique: Ouça o triste cego. Desprezei esta, porque está muito estropeada. -30b A pessoa que me disse este romance não se lembra bem da ordem por que são ditas estas três últimas quadras. Recitou primeiro a segunda e depois a primeira. Dei-lhes esta ordem por me parecer mais conforme ao sentido.

Bibliografía:
Recogido antes de 1911. Publicada en Dias 1911, 51-52. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1112, pp. 313-314. © Fundação Calouste Gulbenkian.