Ciego raptor v64

IGR: 0189. Versión: 64. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 42.

Azenhas do Mar (c. Sintra, dist. Lisboa, Estremadura, Portugal)

Era meia-noite    quando o ladrão veio
bater três pancadas    à porta do meio.
Abre-me essa porta,    abre-me o postigo,
empresta-me um lenço    que eu venho ferido.
Se você vem ferido,    vá-se já embora,
que a minha portinha    não se abre agora;
não se abre agora,    nem se há-de abrir,
que a minha mãezinha    está a dormir.
Acorda, mãezinha,    se estás a dormir,
está aqui um cego    que anda a pedir!
Se ele anda a pedir,    dá-lhe pão e vinho,
se ele não quiser,    siga o seu caminho.
Não quero o vosso pão,    nem o vosso vinho;
quero que a Vitorina    me ensine o caminho.
Anda, Vitorina,    sejas bem mandada,
vai com o pobre cego    ensinar-lhe a estrada!
Anda, meu ceguinho,    anda mais ali,
que estão os criados    à espera de ti;
anda, meu ceguinho,    anda mais além.
Adeus, minha terra,    adeus, minha mãe.
Não me chames cego    que eu vejo bem.

Bibliografía:
Recogida por Judite Olinda Carvalho de Oliveira, antes de 1948. Publicada en Felgueiras 1948, 413. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1110, pp. 312. © Fundação Calouste Gulbenkian.