Ciego raptor v62

IGR: 0189. Versión: 62. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 56.

Mação (c. Mação, dist. Santarém, Beira Baixa, Portugal)

Vinde abrir a porta    ao cego perdido,
ó minha menina,    que venho ferido.
Pois se vem ferido    que o venha embora,
estas minhas portas    não se abrem agora.
Qual é o vadio    que a estas horas vem?
Estou em anáguas,    não falo a ninguém!
Se estás em anáguas    isso é o que eu quero,
ó minha menina,    de lograr-te espero.
Vá lá, minha mãe,    à porta a ouvir
o que diz o cego    que está a pedir.
Levanta-te, ó filha,    atende o ceguinho,
abre a nossa porta,    dá-lhe pão e vinho.
Não quero o seu pão    nem tão-pouco o vinho,
quero que a menina    me ensine o caminho.
Vai lá, minha filha,    sede bem mandada,
acende a candeia,    ensina-lhe a estrada.
Dê-me a minha roca    bem cheia de linho
para ir o cego    guiar no caminho.
Ó minha menina,    venha mais além,
sou curto da vista    não enxergo bem.
No espicho da roca    acabou-se o linho;
adiante, cego,    lá vai o caminho.
Dai a despedida    se a quereis dar,
à Virgem Maria    que está no altar.
Adeus, ó meu pai,    adeus, meu jardim,
só a minha mãe    me foi falsa a mim.
De pessoas nobres    já fui pretendida,
dum cego fingido    me vejo rendida.

Bibliografía:
Recogido antes de 1921. Publicada en Serrano 1921, 17-19. Reeditada en RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1108, pp. 310-311. © Fundação Calouste Gulbenkian.