IGR: 0189. Versión: 33. Rima: 6+6 estróf.. Hemistiquios 112.
Celorico de Basto (c. Celorico de Basto, dist. Braga, Minho, Portugal)
Donde vens, ó Ana? Eu venho da missa.
Retira-te, ó Ana, que lá vem justiça.
Se lá vem justiça deixai-me ir embora,
que a minha portinha não se abre agora.
Qual é o vadio que a esta hora anda?
Que eu estou em faixinhas para me ir à cama.
Se estás em faixinhas, eu assim te quero;
se hás-de ser minha, eu por ti espero.
Acorde, minha mãe, do doce dormir;
venha ver o cego tocar e pedir.
Se toca e pede, dá-lhe pão e vinho,
para que o cego siga o seu caminho.
Nem quero o seu pão, nem quero o seu vinho;
queria que a menina me ensine o caminho.
Ora vai, filha, vai, leva roca e linho
e ensina o caminho ao triste ceguinho.
Espere lá, ó cego, que eu estou-me vestindo
minha saia roxa, meu gibão de linho.
Espiou-se-me a roca, acabou-se-me o linho;
adiante, cego, lá vai o caminho.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Lá mais adiante está um verde pinho.
Ora venha, menina, mais um bocadinho,
e ensine o caminho ao triste ceguinho.
Valha-me Deus e a Virgem Maria,
que vejo tanta gente de cavalaria.
Nunca eu vi cego com tal fantasia:
sua espada d` ouro à cinta trazia.
De condes e duques era pretendida:
agora dum cego me vejo perdida.
Ascuite, menina, não teu há agonia,
que eu sou o mesmo conde que a pretendia.
Adeus, minhas casas, adeus, minhas terras,
adeus, minha mãe, que tão falsa me eras.
Estando à minha janela, dei volta para a Ferraria;
passou um certo sujeito, olhou mais do que olharia.
Se ele tornar a olhar alguma lhe hei-de dizer,
que não vá dizer o mundo que isto é por bem querer.
Se isto é por bem querer, não importa que o diga;
se eu olho para cima, o seu amor me obriga.
Não sei que o obrigue, nem que o possa obrigar,
estando à minha janela, tão sisuda, sem falar.
Essa sua sisudez ainda é o que mais m` obriga,
que é o melhor dos modos que tem uma rapariga.
Ó meu pai e minha mãe, uma lhes quero dizer;
falaram-me em casamento, sem vocemecês saber.
Qual foi o cavalheiro que a tal se atreveu?
falar nesse casamento sem saber se quero eu!
Vá-se meu pai informar e venha bem informado
que, se ele é de seu gosto, é muito do meu agrado.
Não tenho que te dizer, nem tão pouco que m` informar.
Era um maroto, um brejeiro, que te queria enganar.
Vá-se lá, seu cavaleiro, case lá com quem quiser,
que não é meu pai contente, que eu seja sua mulher.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Dá-me cá aquela faca, que me quero matar.
Se ele morre por mim, por ele quero morrer;
Adeus, meu pai e minha mãe, que os não torno a ver.