Bodas de sangre v9

IGR: 0440. Versión: 9. Rima: á+estróf.. Hemistiquios 74.

S. Jorge s. l. (isla de S. Jorge, Açores, Portugal)

O marquês tinha três filhos,    três filhos tinha o marquês,
o rei os mandou pedir,    cada um por sua vez.
O mais velho p`r`ó vestir,    o do meio p`r`ó calçar,
o mais moço deles todos,    para o rei barbear.
A princesa, que tal soube,    dele se quis namorar,
o rei, que tal soubera,    quisera-o mandar matar,
manda-o meter numa torre,    até ele ir degolar.
Passava um caçador,    a caçar caça real.
Que fazeis aqui, Dom Pedro,    minha carne natural?
`Stou com sentença de forca,    amanhã vou a matar,
por uma fala de amor    que à princesa qu`ria dar.
Foi-se embora o caçador,    a caçar caça real.
Eu trago notícias novas,    as quais as não posso dar,
vi vosso filho na forca,    amanhã vai a matar.
Ela, que ouviu aquilo,    tratou já de caminhar.
Suas aias e criadas,    não a podem alcançar,
os seus vestidos no braço,    sem os poder enfiar.
Que fazeis aqui, meu filho,    neste escuro hospital?
Estou com sentença de forca,    amanhã vou a matar,
por uma palavra de amor    que à princesa queria dar.
Tomai lá nesta viola,    tocai-me nela um baixão,
como vosso pai tocava,    no dia de Sam João.
Dai vós a Deus tal mulher,    tão dura do coração,
tem o filho para morrer,    manda tocar um baixão.
«Ó dia, que eras um dia,    ó dia de Sam João,
quando todos os mancebos,    com as suas damas vão,
uns levam cravos e rosas,    outros um manjaricão.
Ai de mim, triste coitado,    `stou nesta escura prisão,
donde não vejo sair,    o tão lindo claro sol.»
O rei, que ia passeando,    cavalo mandou parar.
Que vozes do céu são estas,    que eu aqui ouço cantar?
Ou são os anjos no céu,    ou as sereias no mar.
Não são os anjos no céu,    nem as sereias do mar,
é Dom Pedro Pequenino,    que meu pai manda matar.
Eu o queria por marido,    se o pai mo quisera dar,
Chama à pressa o carcereiro,    que à pressa o vá soltar,
aí o tens por marido,    Deus vo-lo deixe gozar.

Otros datos:
Título original: O Órfão.

Bibliografía:
Recogido antes de 1869. (Colec.: Teixeira Soares de Sousa, J.). Publicada en Braga 1869, (y Braga 1982), 257-259. Reeditada en Hardung 1887, I. 256-258; Soares de Sousa 1902, 314-317; RGP I 1906, (reed. facs. 1982) 348-350; Cortes-Rodrigues 1987, 210-212; Carinhas 1995, II. 18-19 y RºPortTOM 2000, vol. 1, nº 308, pp. 482-483. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0078 El prisionero contam.]