Bernal Francés+Aparición de la enamorada muerta v32

IGR: 0222+0168. Versión: 32. Rima: í. Hemistiquios 108.

Câmara de Lobos (c. Câmara de Lobos, isla de Madeira, Madeira, Portugal)

Quem bate à minha porta,    a est` hora de dormir?
Sou Bernal Francês, senhora,    p`ra vos bem qu`rer e servir.
Pois que és Bernal Francês,    minha porta vou abrir.
E saltei da minha cama,    sem cuidar de me vestir,
e fui abrir minha porta,    nunca la foss` eu abrir.
Apagou-me la candeia,    lo vento por `li a vir,
deu-me uma rabanada,    qu` estive quas` a cair,
meu chapim lá me ficou,    quando volvi a subir.
Pois que és Bernal Francês,    minha porta vim abrir.
E lo levei pola mão,    à volta do meu jardim,
por entre cravos a rosas,    fui deitá-lo par de mim.
Meia-noite vai passada,    outra meia vai a fim,
Bernal Francês nã me falas,    nem te voltas pera mim?
Ou dama tens tu em França,    ou já nã gostas de mim.
Bem sabes, nã tenho outra,    sabes se gostei de ti.
Se tu temes de meu pai,    mora bem longe daqui.
Nã me temo de teu pai,    quasi pai el` é de mim.
Se temes de meus irmãos,    andam bem longe daqui.
Nã temo de teus irmãos,    que são quasi irmãos de mim.
Se temes de meu marido,    longes terras foi daqui.
Nã temo de teu marido,    qu` e1` é mais qu` irmão de mim,
teme tu, mulher treidora,    poi` lo tens a par de ti.
Ai que sonho, feio sonho,    eu sonhei agor` aqui,
`inda bem qu` és meu marido,    mais te quero do qu` a mim.
Ergamo-nos já da cama,    deixa-me vestir daí.
Cal`-te lá, mulher treidora,    que não m` inganas assim,
antes do nacer do sol,    eu te visto de cetim,
gargantilha de corais,    que hão-de sair de ti.
Meu marido me matou,    de morte que bem mer`ci,
quem me vir Bernal Francês,    diga-lhe qu` eu já morri.
Aonde ides, cavaleiro,    tão risonho e gentil?
Vou-m` a vê` la minha dama,    na igreja de Sã Gil.
Vossa dama lá `stá morta,    que morta eu bem na vi,
interro qu` ela levava,    eu vos vou dizer aqui:
mortalha qu` ela vestia,    era de rico cetim,
gargantilha de corais,    que lhe saíam de si,
lo esquife do seu corpo,    de veludo e marfim.
Damos que 1` acompanhavam,    tantos que nã tinham fim.
Seu marido la matou,    por `mor de vós, não de mim.
Palavras não eram ditas,    por morto no chão caí,
passaram horas e horas,    quando eu do chão m` ergui,
e lhe fui à sepultura,    que qu`ria morrer ali.
Abre la campa sagrada,    esconde-m` a par de ti.
Do fundo da cova triste,    sua voz então ouvi.
Vive tu, Bernal Francês,    vive tu qu` eu já morri,
olhos com que te mirava,    já de terra los cobri,
boca corn que te beijava,    já de terra la enchi,
cabelos que m` intrançavas,    já caíram par de mim.
Dos braços que t` abraçavam,    las canas vê-las aqui,
corpo em que te revias,    já na terra lo perdi.
Mulher com quem tu casares,    tenha lo nome de mim,
quando tu chames por ela,    lembrada serei de ti.
Conta-lhe nossos amores,    aprenda na minha fim,
vive tu, Bernal Francês,    vive tu qu` eu já morri.
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Emendas propostas por Álvaro Rodrigues de Azevedo: -17b como pai ele é de mim; -19b que são como irmãos de mim; -28a de coral.    

Otros datos:
Nota: -31 empalma con el segundo romance.

Bibliografía:
Recogido antes de 1880. Publicada en Azevedo 1880, 141145. Reeditada en RGP II 1907, (reed. facs. 1985), 5558; Coelho 1946, 184187; Resende 1961, 338341; Galhoz 1987-1988, I. 289290 y Carinhas 1995, II. 149-150 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 932, pp. 163-165. © Fundação Calouste Gulbenkian.