IGR: 0234. Versión: 109. Rima: estróf.. Hemistiquios 56.
Mação (c. Mação, dist. Santarém, Beira Baixa, Portugal)
Chegando o senhor Dom Jorge das batalhas d` Além-Mar,
correu logo a ver a esposa que deixara no solar.
Ao chegar ao seu palácio, em noite de San João,
achou-o todo enfeitado com florinhas de limão.
Não se enfeitou p`ra Dom Jorge, nem para o Santo Precursor;
enfeitou-se para Dom Bento, filho do imperador.
Abre as portas, Branca-Linda, abre as portas, Branca-Flor;
dize-me se estais dormindo ou se já tens outro amor!
Ainda não estou dormindo, também não tenho outro amor;
são perdidas, não achadas, as chaves do corredor.
Se as chaves eram de prata, d` ouro tas mandarei pôr;
abe as portas, Branca-Linda, abre as portas, Branca-Flor.
Só passado muito tempo branca-Flor a porta abria;
Dom Jorge, muito agastado, tomou-o por zombaria.
Passou revista ao palácio, correu toda a casaria;
ao vê-lo assim, Branca-Flor, de susto, toda tremia.
Que cavalo é aquele que à manjedoura rinchou?
É de vós, senhor Dom Jorge, foi meu pai que hoje o mandou.
Que camisa é aquela com a tirinha bordada?
É para vós, senhor Dom Jorge, hoje a dei por acabada.
De quem é aquela espada, que d` ouro tem guarnição?
Branca-Flor não respondeu, caiu redonda no chão.
Dizei que espada era aquela que d` ouro tem guarnição?
Matai-me, senhor, com ela, que vos fiz grande traição.
Não te mato, vil traidora! Não quero que a minha espada
fique suja com o teu sangue e que fique desonrada.
Mate-te o bom Deus do Céu ou o pai que te criou,
que eu me vou por esse mundo como um infeliz que sou!