Conde Alarcos v90

IGR: 0503. Versión: 90. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 72.

Barrô (c. Resende, dist. Viseu, Beira Alta, Portugal)

Indo a dona Silvana    pelo corredor acima,
tocando numa guitarra,    muito bem a confrangia!
Acordou seu pai da cama    c` o estrondo que ela fazia.
Tu que tens, dona Silvana?    Tu que tens, ó minha filha?
Tenho três irmãs casadas,    todas três já têm família,
e eu por ser a mais formosa    para o canto ficaria?
Só o conde d` Alemanha,    é casado, tem família!
Esse mesmo, ó meu pai,    esse mesmo é que eu queria.
Mande-me aqui chamar    da sua parte e da minha.
Mandou logo um criado,    logo nesse mesmo dia.
As palavras não eram ditas,    o conde à porta batia.
Que quer Vossa Majestade?    Que quer Vossa Senhoria?
Que mates tua mulher    para casares com minha filha.
Eu como a hei-de matar,    s` ela a morte não mer`cia?
Quero-lh` aqui a cabeça    nesta doirada bacia.
Foi o conde para casa    com uma grande agonia,
mandou pôr o chá na mesa,    para fazer que comia,
os soluços eram tantos    que a mesa estremecia,
as lágrimas eram tantas    que pela mesa corriam.
Tu que tens, ó conde novo,    conta-m` as tuas agonias.
Eu como as hei-de contar,    se são tuas, não são minhas?
Mandou-me o rei chamar,    ao palácio da rainha,
qu` eu te viesse matar,    para casar com sua filha.
`Scuta, `scuta, conde novo,    qu` isso remédio teria.
Meterás-me num convento,    onde meu pai me metia,
comerei o pão por onça    e o vinho por medida.
Deixa-me dar um passeio    da sala para a cozinha,
adeus, moças, adeus, aias,    a quem eu tanto queria.
Vem cá tu, filho mais velho,    que te quero ensinar,
para quando tiveres mãe nova,    para lhe saberes falar.
Vem cá tu, filho mais novo,    que te quero abraçar,
mama, meu menino,    este leite d` amargura,
qu` amanhã, por estas horas,    `stá tua mãe na sepultura.
Tocam nos sinos na Sé.    Ai Jesus! Quem morreria?
Morreu a dona Silvana    pelas traições que fazia,
descasar os bem casados    é coisa que Deus não queria!

Otros datos:
Inicio: [0005 Silvana contam.]
Bibliografía:
Recogido antes de 1958. Publicada en Leite de Vasconcellos 1958-1960, I, 188-189. Reeditada en RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 729, pp. 416-417. © Fundação Calouste Gulbenkian.