Conde Alarcos v44

IGR: 0503. Versión: 44. Rima: í-a+estróf.. Hemistiquios 82.

Trás-os-Montes e Alto Douro s. l. (Trás-os-Montes, Portugal)

Bem se passeia Silvana    por um corredor acima,
tocando numa guitarra,    muito bem que a cingia.
Perguntava-lhe seu pai    da cela onde dormia.
Que tens tu, dona Silvana?    Que tens tu, ó filha mia?
Meu pai, queria casar-me,    com a idade já permitia,
e outras mais novas que eu    filho e marido tenia.
Não acho no meu reinado    com quem te cases, filha mia;
só acho o conde da Vida,    esse sim que te servia.
Mande-o chamar, meu pai,    para o jantar de algum dia.
Como o mandarei chamar    se filhos e mulher tenia?
Mande-o chamar, meu pai,    desculpa não lhe valia.
O que quer, el-rei senhor?    Que quer vossa senhoria?
Que mates tua mulher    e cases com a filha mia.
Como a hei-de eu matar    se ela não mo merecia?
Pois tu tens de a matar,    desculpa não te valia;
hás-de trazer-lhe a cabeça    nesta dourada bacia.
Foi o conde para casa,    muito triste que ele ia.
Que tens tu, conde da Vida,    conta-me a tua agonia,
manda fazer o jantar,    que ao despois te contaria.
O jantar estava feito,    nem um nem outro comia,
Conta-me, ó conde da Vida,    conta-me a tua agonia.
Vamos passear ao jardim    e depois ta contaria.
Conta-me, ó conde da Vida,    conta-me a tua agonia.
Vamo-nos deitar à cama    e depois ta contaria.
Pois eis já estavam deitados;    nem um nem outro dormia.
Conta-me, ó conde da Vida,    conta-me a tua agonia.
Que diz el-rei que te mate    p`ra casar com sua filha.
E porque lhe não dirias    que isso te eu não merecia?
Disse, disse, ó mulher,    quantas vezes lho diria!
Mete-me nesse convento    onde esteve minha tia.
Quer que te leve a cabeça    nesta dourada bacia.
Chama meu filho mais velho,    que o quero pentear;
chama o meu filho mais novo,    quero dar-lhe de mamar.
Mama, mama, meu menino,    este leite de amargura,
que amanhã, por estas horas,    estarei na sepultura.
Mama, mama, meu menino,    este leite amargurado,
amanha por estas horas,    meu corpo está sepultado!
Tocam os sinos na Sé,    ó meu Deus, quem morreria?
Morreu el-rei, minha mãe,    e a perra da sua filha.
O rei está nos infernos    e a filha p`ra lá caminha,
por descasar os casados,    aquilo que Deus não queria!

Bibliografía:
Recogido antes de 1924. Publicada en Magalhães Sepúlveda 1924, 54-55. Reeditada en RºPortTOM 2001, vol. 2, nº 683, pp. 361-362. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0005 Silvana contam.]