IGR: 0457. Versión: 32. Rima: á. Hemistiquios 70.
Portugal s. l. (Portugal)
Lá vem a nau Catrineta que tem muito que contar,
escutai, se quereis ouvir, uma historia de pasmar.
Muito tempo era passado que iam na volta do mar,
já não tinham que comer, já não tinham que manjar,
deitaram sola de molho para o outro dia jantar,
mas a sola era tão dura, que a não podiam rilhar.
Deitam sortes à ventura quem haviam de matar,
mas a sorte foi cair no capitão-general.
Sobe, sobe, marujinho, àquele mastro real;
vê se vês terras de Espanha ou praias de Portugal.
Não vejo terras de Espanha, nem praias de Portugal;
vejo sete espadas nuas que estão para te matar.
Arriba, arriba, gajeiro, alcança o tope real;
vê lá se enxergas Espanha, areias de Portugal.
Dá-me alvíssaras, capitão, meu capitão-general,
já vejo terras de Espanha e as praias de Portugal;
também vejo três meninas debaixo dum laranjal:
uma sentada a coser, outra na roca a fiar
e a mais linda delas todas está no meio a chorar.
Todas três são minhas filhas, quem nas pudera abraçar.
A mais linda delas todas há-de contigo casar.
Eu não quero a vossa filha, que vos custou a criar.
Dou-te então tanto dinheiro que o não possas contar.
Não quero o vosso dinheiro, que vos custou a ganhar.
Dou-te o meu cavalo branco, sempre pronto a galopar.
Guardai o vosso cavalo, que vos custou a ensinar.
Queres tu a nau Catrineta para nela navegar?
Não quero a nau Catrineta porque a não sei governar.
Que queres então, meu gajeiro, que alvíssaras te hei-de dar?
Quero só a tua alma para comigo a levar.
Renego de ti, demónio, que me estavas a tentar;
a minha alma é só de Deus, o meu corpo é para o mar.
Pegou-lhe um anjo nos braços, não no deixou afogar;
deu um estoiro o demónio e sossegou logo o mar
e à noite a nau Catrineta estava em terra a varar.