IGR: 0309. Versión: 37. Rima: á-a+estróf.. Hemistiquios 92.
Funchal (c. Funchal, isla de Madeira, Madeira, Portugal)
Abre ta porta, Morena, oh que noite de geada!
Se me não abres la porta, nunca mais te darei nada.
Vai-t` imbora, Frei João, qu` esta noit` é aziaga:
a mamar tenho lo filho, lo marido à ilharga.
Palavras não eram ditas, lo marido a `cordar.
Dizei-me cá, mulher minha, corn quem `stais `i a falar?
La padeira que pergunta, como há-d` el` amassar,
que no pote nã tem água, tã pouco lume no lar.
Ficai, pois, mulher, na cama, qu` eu me vou alevantar,
duas filhas qu ` aí temos, ambas las vou acordar;
uma que vá pedir lume, outra vá água buscar;
e despois vou por `i fora, além às serras caçar.
Morena lhe respondeu, cuidando lo inganar:
Lo mais `stá de minha conta, podeis ir já montear.
Pois, adeus. Ficai, mulher, nossa cas` a governar,
que la hora da manha é la melhor de caçar.
Lo marido que saía, ela que s` alevantava,
las filhas ficam dormindo, e ela que s` infeitava:
boa meia, alva de neve, que na perna lh` estalava,
sapato de cordovão, no seu pezinho calçava.
Deitando la cap`aos ombros, ao mosteiro caminhava
e, chegad` à portaria, por Frei João perguntava.
E ele, posto de janela, sua guitarra tocava
mas, avistando Morena, s` houvera correr, voava
e, aberto lo postigo, Morena por `i entrava,
e daí se foi à cela onde Frei João morava.
Frei João deu-lh` um vestido, de sete reais à vara,
item, um lenço de seda, que meio sequim custara.
E mais Frei João lhe deu, que sua freira mandara,
bocetinhas de confeitos e bom vinho que guardara.
Adeus, qu`rido Frei João, da minh` alma prend` amada,
que Deus nos deixe gozar outra manha tão folgada.
Morena, que Deus nos dê outra manhã invernada.
Já fora da portaria, la vai ela na estrada,
e poucos passos andados logo se vê salteada
do marido, que pergunta: Donde vindes apressada?
Venho do santo mosteiro, fui a missa d` alvorada.
E eu, mulher, aqui mesmo, vim fazer minha caçada.
Missa má que tu ouviste, polo diabo rezada,
aqui te mata nest` hora, sem siquer ser confessada.
Hoje é uma sexta feira, vou deitar alto pregão:
eu mato minha mulher, barregã de Frei João,
duas facadas lhe dou, a ambas ao coraçao.
Deus, se quer, que lhe perdoe, que de mim nã tem perdão.
Aqui `stou na minha casa, de meu gabão incarnado,
saiba Deus e todo o mundo qu` eu sou um vilão honrado.
Nota del editor de RºPortTOM 2003: Omitimos as seguintes didacalias: entre -2 e -3 Responde ela; entre -40 e -41 E, puxando de uma faca, pôs-se a pregoar assim; entre -44 e -45 E logo às facadas matou Morena. Interrou-la e, chegando a casa, virou-se para seus vizinhos e disse.