IGR: 0233. Versión: 191. Rima: é-a. Hemistiquios 54.
Vila de Machico (c. Machico, isla de Madeira, Madeira, Portugal)
Lá no lugar da Presência, onde morava a Serrona,
também morava a justicia, ruça, preta de morena.
Dá-me novas para a água, aguilhões par`à fzenda.
La passeia um mancebito qu`ela seu bem lhe parecera;
le pegou na sua mão, à cova le foi levar.
De quem são aquelas cruzes que `tão acolá prantadas?
É d` homens qu`eu tenho mortos co`as cabecinhas roladas;
em quanto a ti mancebito a gana a mim me chegar.
De galinhas e capões nós tivemos boa ceia.
Quando foi p`ra descalçar, ela descalçou-me, eu descalcei-a;
quand foi p`ra na lavar, ela lavou-me, eu lavei-a;
quando foi p`ra ir p`rà cama, eu servi-lhe de cadeira.
O diabo leve a Pérola, que sete arrobas tivera!
Pediu-me duas histórias, vinte e quatro eu le dissera;
já ia na derradeira quando adormeceu Pérola.
Minha bandeira mal posta, eu tratei de caminhar;
foi toda a minha fortuna a cova aberta ficar.
Sete léguas eram andadas sem eu p`r atrás vigiar;
às oito eram entradas quand` eu p`ra trás vigiei,
quand` eu vi vir a Serrona a correr de véugua em véugua,
com a funda numa mão avança mais duma légua.
Esperai aí, mancebito, esperai aí, houvera,
p`ra me levar uma carta `ó meu pai da tua terra.
Algum asno que te oiça, algum burro que t` espera,
pelas acções qu`eu te vejo és filh d` alguma égua.
Ai, coitada de mim, Serrona, ai, coitadade mim, Pérola,
por causa de ti, mancebito, agora `tou descuberta!