IGR: 0164+0100. Versión: 50. Rima: í-a. Hemistiquios 68.
Covilhã (c. Covilhã, dist. Castelo Branco, Beira Baixa, Portugal)
Dom João foi para caça, foi à caça à porfia,
anoiteceu-lhe num bosque, era o que ele mais temia;
seus cavalos por ferrar, era o que ele mais sentia.
Lá pela noite adiante, um lindo cantar ouvia,
deitou os olhos ao largo, viu lá estar uma donzila,
penteando o seu cabelo em um tanque de água fria.
Que fazeis aqui, senhora, que fazeis aqui, donzila?
Sete fadas me fadaram no colo de madre minha,
fadaram-me por sete anos, por sete anos e um dia.
Hoje se acabam os anos, amanhã por noute o dia;
bem pudera o cavaleiro levar-me na companhia.
Desde já, minha senhora, eu tudo isso lhe faria;
dizei-me, ó minha senhora, se ides de anca ou de silha.
Eu vou de anca, ó cavaleiro, que isso é da honra minha.
Lá pelo caminho adiante, ela se pôs a sorrir.
De que vos rides, senhora, de que rides vós, donzila?
Eu rio-me do cavaleiro e da sua cobardia,
achar donzila no campo e guardar-lhe cortesia.
Tornemos atrás, senhora, tornemos atrás, donzila,
que deixei a minha espora no tanque da água fria.
Adiante, ó cavaleiro, eu atrás não tornaria,
se a espora era de prata, meu pai de ouro lha daria.
Dizei-me, ó minha senhora, de quem é que vós sois filha.
Sou filha do rei de França, neta do rei de Castila.
Pelos sinais que me dais, vós sois uma mana minha!
Mal hajam todos os homens e quem em mulheres se fia;
cuidando que levo esposa, levo a uma irmã minha.
Abram-se esses palácios, venha toda a fidalguia,
trago aqui uma mana, há sete anos que a não viram.
Venha cá, senhora mãe, ande ver a sua filha,
cuidei trazer nora sua e trago uma mana minha.
Levantou-se a sua mãe da cadeira aonde estava.
Se tu és a minha filha, anda cá para os meus braços,