La Infantina v10

IGR: 0164. Versión: 10. Rima: í-a. Hemistiquios 176.

Ponta do Sol (c. Ponta do Sol, isla de Madeira, Madeira, Portugal)

Foi el-rei, foi a caçar,    a caçar como solia,
e, de cansado, deitou-se    ao pé duma fonte fria,
por debaixo dum loireiro    que também ali havia
e em `riba da relvinha    que polo chão se estendia.
Como estava lá sozinho,    vai nã vai qu` adormecia,
quando ouviu um suspiro    de mulher que se carpia;
e, ouvindo-lo, s` ergueu,    por ver quem assim gemia.
Viu então uma donzela    que nas ramas se escondia;
uma donzela formosa    como outra não havia;
dos olhos da cara dela    luz de sol se resplendia.
Quem soides, e que fazeis,    nesta serra tão bravia?
Se soides princesa ou fada,    sabê-lo desejaria;
porque, se princesa soides,    à corte vos levaria,
e, como rei destes reinos,    eu convosco casaria.
Eu sou princesa de França    e encantada vivia;
sete fadas me encantaram,    por set` anos e um dia.
Hoje acabou meu encanto,    junto desta fonte fria.
De grado, el-rei senhor,    convosco me casaria,
mas estou aqui mal vestida    e nã tenho companhia,
caminhar daqui assim,    nã quer minha hierarquia.
Tendes vós razão, senhora,    nem tão-pouco eu lo queria;
ricos vestidos tereis,    e damas, à cortesia;
ficai-vos aí quieta,    antes de findo lo dia;
tudo isso vou buscar,    só morto nã voltaria.
E, logo, logo, el-rei,    por onde veio volvia;
caminho da sua corte,    a toda la pressa ía.
La princesa, mui` alegre,    no loireiro se escondia,
donde nas águas da fonte    seu lindo rosto revia.
Corrida menos duma hora,    los passos d` alguém sentia;
era mulata aguadeira    que vinha à fonte fria;
se lhe tirassem la cor,    com ser mulata, valia.
Mas, à vista da princesa,    quem compará-las podia?
Chegada que foi à fonte,    se debruçou e lá via
um rosto que seu cuidou,    alvo que mais nã podia.
E disse: –Como sou linda!    E lo seu pote partia.
Nisto ouve uma risada,    sem saber donde viria;
mas, despois, olhando alto,    la princesa descobria.
Quem soides e que fazeis    nesta serra tão bravia?
Se soides princesa ou fada,    de vontade vos seguia.
Eu sou princesa de França    e encantada vivia;
el-rei por aqui passou,    prometeu que tornaria,
que de volta me levava    e comigo casaria.
Mas el-rei, quando chegar,    de certo nã gostaria
ver assim desguedelhada    quem p`ra mulher escolhia.
Decei, pois, senhora, abaixo,    eu aqui vos pentearia.
La princesa achou razão    no que la outra dizia,
e, por isso, do loireiro,    sem demora se decia;
e, no colo da mulata,    sua cabeça pendia.
Senão quando, sono solto,    ela, cuitada, dormia,
na cabeça, la treidora    um espinho lhe metia;
um espinho de silvado,    cheio de feitiçeria,
que bem fundo se cravou,    até onde ser podia
e da tão linda princesa,    mui` feia c`ruja fazia.
La c`ruja gritou um ai    e logo dali fugia,
la mulata, em lugar dela,    ao loireiro se subia.
`Inda sol não era posto,    já el-rei p`ra lá volvia,
ricos vestidos trazendo,    damas e mais fidalguia.
Princesa, minha princesa!    Mas ninguém lhe respondia,
a nã ser piar de c`ruja    que por `li perto gemia.
Chegando el-rei à fonte,    la mulata descobria.
Qu` estás tu aí, mulata?    Ela, afoita, respondia:
Sou la princesa de França,    que encantada vivia,
a quem prometestes vir    antes de findo lo dia;
e, como rei, fiançastes    qu` eu convosco casaria.
Eu sozinha vos esperava,    entre esta rama sombria;
se minh` alvura perdi,    só a vós lo deveria;
foi praga que me rogou,    quem de inveja se mordia.
Mal hajam las invejosas!    (Raivando el-rei dizia),
se la cor vos demudaram,    nã vos mudam hierarquia,
nem à promessa de rei,    eu nunca vos faltaria,
decei-vos daí, senhora,    vinde nesta companhia.
Logo qu` entraram na corte,    todos fingem alegria;
el-rei, no altar sagrado,    por mulher la recebia
e, cego d` amor por ela,    muito cativo vivia.
Se lo rei bem lo soubera,    el-rei que lhe nã faria?
Mas quando toda` las tardes,    tocava l` avé-maria,
nos eirados de palácio,    triste la c`ruja aparecia,
e no seu piar, piar,    estas palavras dizia:
Justiça, el-rei senhor,    dessa mulata vadia!
E la mulata rainha,    uma vez que isto lhe ouvia,
sem mais tir-te, nem mais guar-te,    um dardo lhe despedia,
mas lo tiro só tocou    onde lo espinho havia,
e logo lo arrancando,    la c`ruja desaparecia;
la princesa, em lugar dela,    toda la gente la via.
Justiça, el-rei senhor,    (toda la gente dizia),
justiça, el-rei senhor,    dessa mulata vadia!
La mulata, na mesma hora,    às mãos do povo morria;

Otros datos:
88 por sua mulher, el-rei la princesa recebia.

Nota del editor de RºPortTOM 2004: -68b y -85b Os parêntesis são da responsabilidade de Azevedo 1880. Omitimos as seguintes didascálias: entre -10 e -11 E disse; entre -14 e -15 Responde ela. Azevedo 1880, incorpora um conto tradicional versificado.

Bibliografía:
Recitada por Maria do Passo. Recogido antes de 1880. Publicada en Azevedo 1880, 354-360. Reeditada en Resende 1961, 317-323; Carinhas 1995, II. 169-170 y RºPortTOM 2004, vol. 4, nº 1330, pp. 90-93. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[cuento tradicional versificado contam.]