Conde Claros en hábito de fraile v109

IGR: 0159. Versión: 109. Rima: á. Hemistiquios 66.

Coimbra s. l. (c. Coimbra, dist. Coimbra, Beira Litoral, Portugal)

A cidade de Coimbra    tem uma fonte de água clara;
as moças que bebem nela    logo se vêem pejadas.
Dona Areria bebeu nela    logo se viu ocupada.
Estando com seu pai à mesa    seu pai que muito a mirava.
Dona Areria, Dona Areria,    parece que estás pejada?
A culpa é dos alfaiates,    que talharam mal a saia.
Chamaram-se os alfaiates    à sua sala fechada,
olharam uns para os outros:    Esta saia não tem nada.
Ao cabo de nove meses    ela será abaixada.
Arrecolheu-se ao seu quarto    muito triste, desmaiada.
Dona Areria, Dona Areria,    amanhã serás queimada.
Não se me dá que me queimem,    que me tornem a queimar;
dá-se-me deste meu ventre    que é de mui nobre linhagem.
Oh quem me dera um criado    que me comera o meu pão;
que me levara uma carta    ao conde de Montalvão!
Escreva, menina, escreva,    escreva do coração,
que eu lhe levarei a carta    ao conde de Montalvão.
Aqui tem, ó senhor conde,    carta de muito pesar;
menina com quem dormiu    ela aí vem a queimar.
Se tu me dizes deveras,    cavalos mando aprontar;
a jornada de oito dias    ainda hoje se há-de andar.
Lá ao fim de nove léguas    liteiras se hão-de encontrar.
Vestiu-se em trajos de frade    ao caminho a foi esperar;
em chegando ao pé dela    aos criados foi falar.
Pára, pára, ó da liteira,    que eu te farei parar;
a menina que vem dentro,    ela vem por confessar.
Diga-me, minha menina,    verdade me há-de falar,
se teve amores com clérigos    ou com frades, mal pesar?
Não tive amores com clérigos,    nem frades de mal pesar;
tive amores com Dom Carlos,    por isso vou a queimar.
Lá no meio da confissão    um beijinho me há-de dar.
Onde o conde pôs a boca    padre algum lhe há-de tocar.
Pois Dom Carlos sou eu mesmo    e contigo hei-de casar.

Otros datos:
Nota: Infanta preñada, vv 1-10.

Bibliografía:
Recogido antes de 1867. Publicada en Braga 1867a, 87-89; Hardung 1877, I. 202-204; RGP I 1906, (feed. facs. 1982) 382-384. Reeditada en Nascimento 1982, 154-155; Pinto-Correia 1987a, 462-464; Pinto-Correa 1994, 303 y RºPortTOM 2000, vol. 1, nº 175, pp. 327-328. © Fundação Calouste Gulbenkian.
[0469 Infanta preñada contam.]