IGR: 0113. Versión: 273. Rima: á-a+í. Hemistiquios 100.
Resende (c. Resende, dist. Viseu, Beira Alta, Portugal)
`Stando dona Clarinda no seu jardim assentada,
com pente d` oiro na mão seu cabelo penteava.
Deitou os olhos e viu no mar uma grandi armada,
depois donde nela vinha muito bem aperautada.
Diga-me, ó seu comandante, diga-me, por sua i-alma,
marido que Deus me deu, s` ele vem na sua armada.
Ess` homem não no conheço, nem sei que sinais levava.
Levava cavalo branco de sua sela lavrada.
Pelos sinais que mais, na guerra ficou `stirado,
com vinte e cinco facadas, cada uma em seu lado,
a mais pequenina delas era o pescoço cortado.
Ai de mim, triste viúva! Ai de mim, triste coitada!
De três filhas que eu tenho, sem nenhuma `star casada!
Q`anto dais, real senhora, a quem vo-lo fora buscar?
Três moinhos que eu tenho, todos três os dera a si:
um mói prata e outro oiro, outro canela e marfim.
Eu não quero os seus moinhos, que me não pertencem a mim,
sou soldado, vou para a guerra, não me demoro aqui.
Quanto dais, real senhora, a quem vo-lo trouxera aqui?
Darei-lh` o meu limoeiro, que tenho no meu jardim.
Não quero o seu limoeiro que me não pertence a mim,
sou soldado, vou para a guerra, não me demoro aqui.
Quanto dais, real senhora, a quem vo-lo trouxera aqui?
As telhas do meu telhado: são de oiro e de marfim.
Não quero as suas telhas, que me não pertencem a mim,
sou soldado, vou para a guerra, não me demoro aqui.
Quanto dais, real senhora, a quem vo-lo trouxera aqui?
De três filhas que eu tenho, todas três as dera a si,
uma para o vestir, outra para o calçar,
a mais bonita delas para consigo casar.
Não quero as vossas filhas, que vos custaram a criar,
sou soldado, vou para a guerra, não me posso demorar.
Quanto déreis vós, senhora, a quem vo-lo fôra buscar?
Não tenho mais que vos dar, nem vós mais que me pedirdes.
Vós tendes mais que me dar e eu muito mais que vos pedir.
Cavalheiro que tanto pede devia ser arrastado,
ao redor do meu jardim, ao rabo do meu cavalo.
Vá-s` embora, seu maroto, vá-s` embora já daqui!
Hão-de vir os meus criados que dirão vendo-o aqui?
Deixa vir os teus criados, que criados são de mim.
Vá-s` embora, seu maroto, vá-s` embora já daqui!
Hão-de vir as minhas tias que dirão vendo-o aqui?
Deixa vir as tuas tias, qu` elas tias são de mim.
Vá-s` embora, seu maroto, vá-s` embora já daqui!
Hão-de vir as minhas filhas que dirão vendo-o aqui?
Deixa vir as tuas filhas, que elas filhas são de mim.
O anel das sete pedras que eu contigo reparti?
Deixa ver tua ametade, poi` la minha véi-l` aqui.
Sabias que eras meu homem, por que tiravas de mim?
A ver se m` eras leal, consant` eu fui a ti.