Delgadina v189

IGR: 0075. Versión: 189. Rima: á-a. Hemistiquios 70.

Maçores (c. Torre de Moncorvo, dist. Bragança, Trás-os-Montes, Portugal)

Indo dona Silvaninha    pelo corredor acima,
tocando uma guitarra    (e bem que ela a tenia!);
acordou seu papá    c` o estrondo que faza.
Que é isso, ó Silvaninha,    ó Silvana, filha mia?
Bem puderas, ó Silvana,    comigo brincar um dia!
Brincara, meu pai, brincara,    meu pai eu brincaria!
Mas as penas do Inferno meu pai,    quem nas sofreria?
O Padre Santo em Roma    tudo nos perdoaria!
Mas as penas do Inferno,    meu pai, quem nas passaria?
Por causa de ti, Silvana,    passo-as eu cada dia!
Mando-te fazer uma torre    no alto à maravilha
para meter-te, Silvana,    Silvaninha, algum dia!
A dar-te pão por oncas    e água por medida
e uma sardinha salgada    p`ra te tirar a vida.
Ao fim de três dias    Silvaninha clamava;
assomou-se na janela,    a uma janela mui` alta,
onde viu estar seus irmãos    a jogar o jogo da carta.
Meus irmãos, que Deus me deu,    dai-me uma pinga d` água!
Oh, que fomes, oh, que sedes,    a Deus entrego minha alma!
Minha mana dera, dera,    se teu pai não no quitara;
quem dsse agua à Silvana    teria mão cortada.
Assomou-se à jinela,    a outra jinela mui` alta,
onde viu estar sua mãe    a coser numa almofada.
Minha mãe, que Deus me deu,    dai-me uma pinga d` água!
Ai, que fomes, ai, que sedes,    a Deus entrego minha alma!
Minha filha, dera, dera,    se teu pai não no quitara!
Assomou-se a outra jinela,    a outra jinela mui` alta,
onde viu estar seu pai    a brincar c` uma ingrata.
Ó meu pai, que Deus me deu,    dai-me uma pinguinha d` água,
que daqui para o futuro    serei sua namorada!
Corram criados e criadas    a dar agua à Silvaninha,
o primeiro que lá chegar    terá uma prenda minha.
`Inda lá não era chegada,    Silvaninha amortalhada;
Nossa Senhora a vestia,    d` anjos estava cercada;
uma fonte à cabeceira    que rios d` água botava.

Bibliografía:
Recogido antes de 1906. Publicada en Tavares 1906, 280-281. Reeditada en Damião 1997, 75-76 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1142, p. 347. © Fundação Calouste Gulbenkian.