Gerineldo v117

IGR: 0023. Versión: 117. Rima: í-o. Hemistiquios 64.

Elvas (c. Elvas, dist. Portalegre, Alto Alentejo, Portugal)

Gerinaldo, Gerinaldo,    pajem d` el-rei tão querido,
quem me dera, Gerinaldo,    vires aqui dormir comigo.
Quando quereis vós, senhora,    que eu vá em vosso serviço?
Entre a uma e as duas,    que já meu pai está dormido.
A uma não era dada,    Gerinaldo era saído;
foi ao quarto da princesa,    deu um ai mui` dolorido.
Qual será o confiado,    qual será o atrevido,
que entre as portas do meu quarto    dá um ai tão dolorido?
É Gerinaldo, senhora,    que vem em vosso serviço.
Anda cá, ó Gerinaldo,    deita-te aqui comigo.
Era pela manhãzinha,    el-rei queria o seu vestido:
Ou Gerinaldo é morto,    ou Gerinaldo é saído.
Responderam os vassalos    todos muito atrevidos:
Vá-se ao quarto da princesa,    achará-os bem dormidos,
voltados um para o outro,    que nem mulher com marido.
Foi-se el-rei até ao quarto,    achou-os mui` bem dormidos.
Eu se mato Gerinaldo,    criei-o de pequenino,
e se mato a minha filha    tenho o meu reino perdido.
E lançou as mãos atrás    a um punhal que trazia,
voltou os copos p`r`à filha    e o bico para Gerinaldo.
Acordando Gerinaldo    achou-se mui` bem ferido.
Acorda, acorda, princesa,    acorda que estou perdido.
Cal`-te, cal`-te, Gerinaldo,    não te faças pressentido,
que meu pai é dos bons homens,    há-de-me casar contigo.
Deus vos salve, ó bom rei,    `qui tendes vosso vestido,
e aqui estou a vossos pés,    mandai-me dar o castigo;
eu é que fui o confiado    no seu quarto penetrar,
aqui estou a vossos pés,    mandai-me a gorja cortar.
O castigo que te hei-dar    já o tenho prometido;
trata-a a ela por mulher    e ela a ti por marido.
Oh, quem tivera a dita    que Gerinaldo há tido!
`Té `gora fiel vassalo,    agora filho querido.

Otros datos:
Variantes: -5b sabido (sic) (1920); -23a Cal`-ta (sic) (1920).

Bibliografía:
Recogido antes de 1902. Publicada en Pires 1899-1902, 1:93-94; Pires 1920, 11-13 y Pires 1986, 55-56 Reeditada en RTLH 6-8 (1975-1976), 71 y RºPortTOM 2003, vol. 3, nº 1232, p. 448. © Fundação Calouste Gulbenkian.