IGR: 2866. Versión: 1. Rima: polias.. Hemistiquios 120.
Madeira s. l. (Madeira, Portugal)
****Neste cerrado alvoredo, neste bravio montado,
aqui vivo como bicho, entre rochas interrado.
Vai lo dia, vem la noite, nada p`ra mim é mudado;
de minhas penas sustento lo triste de mim, cuitado.
Ó vós troncos e penedos e bichos do descampado,
vinde, ouvi las tristes queixas deste pobre desgraçado.
Dom Hanrique d` Alencrasto é meu nome verdadeiro.
Dos duques desta linhagem sou lo único herdeiro
e, sendo eu só na casa, fui em tudo lo primeiro,
que meu pai muito me quis `té dar lo ai derradeiro.
Com todo-los meus coiteiros fui a montear um dia;
fora eu p`ra trazer caça, mas outrem me caçaria.
Bem longe de tal cuidar, pista da caça corria
quando, lá `lém assomando, fermosa dam` apar`cia.
Olhai lá, coiteiros meus: quem la fermosa seria?
É Dona Guimar de Crasto, da mais alta fidalguia.
Se mais disseram não sei, que, por mim, nã nos ouvia;
todo eu `stava nos olhos, e não andava, corria.
Senhora, servo sou vosso, por vós aqui morreria;
aceitai-me por marido, por mulher vos tomaria.
Despois qu` eu assim falei, él` assim me respondia:
Dom Hanrique d` Alencrasto, isso era lo qu` eu queria.
Jurai-lo, senhora minha? Juro por Virgem Maria;
mulher só de vós serei, doutro não, nunca seria.
E voltou ao seu castelo, ao de meu pai eu volvia.
Est` amor de mim e dela de sol a sol mais crescia.
Entrementes, a meu pai, que tão leal se tratava,
por mexericos dum conde logo el-rei condenava.
Mas quando foi la justiça que por ele procurava,
já não achou quem prender, de morrer el` acabava.
Só de nom` eu conhecia quem lo meu pai me matava;
um conde novo na corte que no amor m` invejava.
E ao novo condesinho que no amor m` invejava,
el-rei, com minhas herdanças, Dona Guimar também dava.
Calado, quedo fiquei, que nem lágrima chorava;
ninguém m` ouviu dizer ai, mas cá dentro rebentava.
Pera ir onde Guimar, de romeiro me vesti;
rondei la casa três dias, nunca, nunca nã na vi.
Mas passou um fidalguinho todo soberbo de si.
Dona Guimar, senhor meu, iria longe daqui?
`Stá inferma, bom romeiro, orai por ela, por mim.
Por mim, que sou noivo dela; por ela. . . . . .– mais não ouvi.
Cegou-me nã sei lo quê, menos sei lo que senti;
no ladrão do condesinho lo meu punhal afundi.
Como el` era quem era, logo foi grande motim;
cramaram, à voz del-rei, todos, todos contra mim.
Mas lo trajo qu` eu vestia logo, logo lo despi;
por meio da tanta gente p`ra estes montes fugi.
Ai, Dona Guimar de Crasto, quem cuidara, quem diria
que tu me foras treidora quando las juras t` ouvia?
Palavras não eram ditas, Dona Guimar qu` apar`cia:
Dom Hanrique d` Alencrasto, quem no dissera mentia;
jurei ser tua mulher, doutro não, nunca seria.
Que me custasse la vida, minhas juras cumpriria.
Tudo a ti te roubaram, tudo por ti deixaria.
Por `mor de mim tu mataste, por `mor de ti morreria.
Dona Guimar aqui `stou, pera tua companhia.
Eu sou tua, tu és meu, valha-nos Jesus, Maria.